Série “Mitos sobre o bilinguismo”: Mito 5

Alguém aí já ouviu o comentário acima? Hoje a gente finaliza a nossa série sobre mitos do bilinguismo com um bem famoso: falar duas línguas é cansativo para a criança. Durante a pesquisa que eu realizei para o meu doutorado, ouvi relatos de mães que, em algum momento, sofreram com esse preconceito. Felizmente, por serem pessoas esclarecidas no assunto, elas não desistiram do bilinguismo. Mas quase todas conheciam alguém que havia desistido.

Eu ainda não sou mãe, então não tenho autoridade para falar sobre a maternidade. Mas o que eu observo e o que surge muito frequentemente nas inúmeras conversas que tenho com mulheres próximas a mim que já são mães é a questão da culpa. A maternidade parece andar de mãos dadas com esse sentimento e lidar com ele é, talvez, o maior dos desafios ao se tornar mãe. Vencê-lo parece impossível. E é aí que surgem os questionamentos e, junto deles, a vontade de desistir do bilinguismo: por que colocar um elemento a mais em uma equação já tão complicada? Para quê ter mais uma razão para ser julgada? Mais um motivo para as pessoas reprovarem seu desempenho como mãe?

Eu não consigo pensar em uma forma de superar essas barreiras que não passe por estes dois processos: adquirir conhecimentos e adquirir auto-conhecimento. Sem se conhecer, saber o que é importante para você, respeitar a sua jornada, fica difícil focar no seu próprio caminho e não se render aos julgamentos alheios. Sem conhecimentos, fica difícil ter segurança em algumas decisões. A maternidade envolve decisões a todo instante e o bilinguismo é uma delas. Sem conhecimentos sobre ele, talvez fique mais fácil desistir. Afinal, lidar com a culpa de ter “sobrecarregado” seu filho expondo-o a duas línguas, motivando-o a entender e falar duas línguas, desde bebê, é um fardo que nenhuma mãe quer para si. Mas temos boas “notícias” (entre aspas, porque não é novo): crescer falando duas línguas não só NÃO provoca cansaço cognitivo, como desenvolve habilidades cognitivas. Isso é consenso entre os estudiosos – para citar alguns, Balkan (1970), Cummins & Swain (1986), King & Mackey (2007). Por que, então, tantas pessoas continuam disseminando essa ideia totalmente equivocada?

A motivação para esse equívoco é fácil de ser identificada: se eu, adulta, me canso ao transitar de uma língua para outra, fico exausta mentalmente quando preciso falar dois idiomas em uma mesma conversa, como uma criança pode não ficar cansada ao fazer o mesmo? Bem, há dois erros bem graves nesse raciocínio: comparar a cognição de uma criança à cognição de um adulto e comparar o bilinguismo de um adulto ao bilinguismo infantil. Essas não são comparações apropriadas e a gente vai poder entender melhor sobre isso em posts futuros, quando os diferentes tipos de bilinguismo serão abordados. =D

Na próxima semana, começaremos uma nova série! Não percam!

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