Quando o bebê começa a falar (em duas línguas): emoção, novidades a cada dia e mundos se aproximando!

 

Oli dois mundinhos

Como a gente pôde ver no último post da Ana, o Oliver começou a falar suas primeiras palavrinhas e está todo tagarela! É difícil conter a emoção e o orgulho – na verdade, a gente nem tenta 😂 – ainda mais quando a gente percebe que os aprendizados que ele está desenvolvendo, apesar de parecerem simples, são bem complexos e envolvem uma série de fatores! Que tal a gente entender, então, um pouco mais sobre o que se passa com nosso bebê nessa fase?

De acordo com Harding-Esch & Riley (2003), a partir dos 3 ou 4 meses, os bebês começam a responder aos sorrisos dos pais e irão também “cumprimentá-los” dessa mesma forma para iniciar uma interação. Assim, “conversações” inteiras começam a ocorrer através da sucessão de ações, reações, sons, choros, sorrisos, tudo que irá mostrar ao bebê que ele é participante de uma interação e, como tal, deve tomar seu turno nas conversações. Esse comportamento é tão fundamental à comunicação humana que raramente pensamos nele como algo que tem de ser aprendido.

Nos meses que precedem as primeiras palavrinhas, o bebê produz uma variedade enorme de sons, incluindo muitos que não existem na(s) língua(s) dos pais. Essa será uma fase essencial no desenvolvimento, uma vez que, neste momento, ele começa a aprender a controlar e usar seu aparato vocal e a tentar todas as possibilidades articulatórias que esse permite, ainda que não as associe, por enquanto, a significados específicos. Até que, gradualmente, a gama de sons começa a diminuir e se especializar, em grande parte devido às reações dos pais que encorajam alguns deles em detrimento de outros. Assim, quando ouvimos nosso bebê produzir um som que existe em nossa língua, demonstramos, naturalmente, uma reação positiva – repetimos o som, rimos, damos destaque a ele – ao passo que quando ouvimos um som que, na nossa língua, não tem significado, iremos, na maioria das vezes, ignorar ou não dar o mesmo destaque e a mesma reação positiva. Isso terá grande impacto na “seleção” que o bebê fará dos sons que ele manterá e continuará a produzir e daqueles que ele abrirá mão e não utilizará mais com tanta frequência.

Uma forma de ajudar nosso bebê nesse processo de descoberta e seleção é associar certos sons a certas rotinas. Por exemplo, um bebê que sorri de volta para as pessoas, brinca de “Cadê? Achou!”, dá “tchau”, começa a falar, depois de um tempo de desenvolvimento, “mamãe” e “papai”, diz “obrigado” ou “obrigada”, está aprendendo os elementos essenciais de uma série de rotinas especiais: cumprimentar, reconhecer, identificar, agradecer, partir e chegar, e por aí vai. Ao usar uma palavra para chamar a atenção dos pais, conseguir algo que precisa (por exemplo, falando “mais” ou “mai”, como o Oliver), o bebê está atendendo às suas necessidades comunicativas, ainda que esteja usando apenas uma palavra e ainda que essa não seja pronunciada perfeitamente. Ele já está inserido em interações complexas e já entendeu como atender às suas necessidades comunicativas. O processo é muito mais complexo do que parece, não é? A gente tem MESMO motivo para sentir tanto orgulho a cada novo aprendizado, cada nova palavra, cada novo gesto! ❤️

Ainda bem cedo, o bebê começa a nomear as pessoas e coisas à sua volta que são mais importantes para ele e que chamam mais a sua atenção. Imagina a emoção ao ouvir o Oliver pronunciar sua primeira palavra: “arara”! Impossível não vibrar com uma palavra tão brasileira, né? 😉 Os bebês também começam a nomear ações e resultados das ações, como por exemplo, quando começam a falar “acabou” (ou “báááá”, como o Oli 😍) para avisar que o pratinho está vazio. Nesse contexto, é fácil entender o que eles querem dizer, mas nem sempre é assim. Em alguns contextos, é bem difícil entender exatamente o que o bebê está querendo dizer, e os pais começam todo um processo de adivinhar, repetir e elaborar a partir daquilo que eles acham que o bebê esteja tentando significar. Neste momento, o bebê parece ter sua própria língua, como a Ana disse no post dela, e o esforço dos pais para entender e construir uma interação a partir do que o bebê está produzindo como linguagem será essencial para seu desenvolvimento, uma vez que o fará perceber que ele é sujeito ativo de uma interação. Não é mais apenas aquele que ouve passivamente o que é dito para ele. Ele é, agora, participante ativo das conversações! 🙌🏻 ☺️

Esse processo de nomear pessoas, coisas e ações não é apenas uma forma de colocar “etiquetas” em tudo que faz parte do seu mundo. O bebê não está apenas nomeando mecanicamente, mas, sim, expressando interesses e preferências. Afinal, há coisas que ele não está nomeando. Ele está, assim, interagindo com o mundo já de forma crítica, posicionando-se, desenvolvendo-se como indivíduo. Eu acho isso de arrepiar, sinceramente. 😲❣️

Mas e no caso específico do bebê bilíngue? Como vai ser?

No caso do bebê que tem contato com duas línguas, um fator será muito interessante e influenciará todo o processo: ele perceberá, desde muito cedo, que a relação entre as palavras e os objetos que elas nomeiam não será única. Ou seja, uma mesma coisa pode ter dois nomes diferentes. Diversas pesquisas vão apontar esse como o fator principal que possibilitará maior abertura e flexibilidade mental às crianças bilíngues.

Um estudo conduzido por Ianco-Worrall (1972) revelou que crianças bilíngues, provenientes de um ambiente familiar em que cada língua era falada com um membro diferente da família, eram significantemente mais sensitivas que crianças monolíngues, no que se refere às relações semânticas entre as palavras e eram também mais avançadas no processo de reconhecimento da arbitrariedade que envolve a relação entre nomes e referentes.

Carringer (1974), ao também desenvolver pesquisas com crianças bilíngues, afirmou que:

(…) bilinguismo promove habilidades de pensamento criativo e, pelo menos em parte, serve para livrar a mente da tirania das palavras. Uma vez que o bilíngue tem dois termos para um referente, sua atenção é focada em ideias e não palavras, em conteúdo ao invés de forma, em significado ao invés de símbolo, e isso é muito importante no processo intelectual, já que permite uma flexibilidade cognitiva maior. (minha tradução livre)

Ou seja, crianças bilíngues vão perceber, ainda muito novas, que não há apenas uma forma de nomear cada coisa no mundo e, assim, a “separação” entre uma palavra e seu significado será maior. Ela entenderá, por exemplo, que o conjunto de sons que formam a palavra “cachorro” e o próprio cachorro não são a mesma coisa, uma vez que, para se referir ao animal, seus pais dizem, às vezes, “cachorro” e, outras vezes, “Hund”. Assim, o desenvolvimento de sua linguagem será todo guiado por sua capacidade de entender e expressar um mesmo pensamento em duas diferentes línguas. Tudo será ainda mais complexo, flexível, dinâmico.

Podemos perceber esse desenvolvimento, por exemplo, quando o Oliver diz “aua” para significar “água” em português, mas usa, sem problemas, os mesmos sons para expressar dor em alemão (os alemães usam a interjeição “aua!” nas situações em que a gente usa, geralmente, “ai!”). Ou, ainda, quando ele mostra entender os nomes dos animais nas duas línguas, sem confusão, indicando que já assimilou, da forma mais natural possível, que há duas palavras, pelo menos, para cada coisa no mundo. Ele imita os animais ou aponta para a imagem deles quando ouve seus nomes nas duas línguas, como a gente pôde ver nos vídeos que postamos no Instagram (https://www.instagram.com/meumundoem2mundos/) e no Facebook (https://www.facebook.com/Meu-Mundo-em-dois-Mundos-1380808585363639) há algumas semanas.

Com essa lindeza, termino o post desta semana e espero poder ter apresentado conhecimentos bacanas para vocês sobre essa fase tão cheia de novidades e tão gratificante. Se bem que, quando se tem uma criança, que fase não é cheia de novidades e super gratificante? 😉💝

Uma semana maravilhosa para vocês e até a próxima! 🤗

Escrito por Pri

Neste post, foram citadas as seguintes obras:

CARRINGER, D. Creative thinking abilities of a Mexican youth. The relationship of bilingualism. In: Journal of Cross-Cultural Psychology 1974. (pp. 492-505)

HARDING-ESCH, E. & RILEY, P. The Bilingual Family. A handbook for parents. Cambridge University Press: Cambridge, 2003.

IANCO-WORRALL, A. Bilingualism and cognitive development. In: Child Development. 43: 1972. (1390-1400)

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