Pra começo de conversa…

“Ana, você vai falar português com ele quando ele nascer?” Foi a primeira pergunta que a Pri – depois de uma explosão de felicidade – me fez quando contei para ela que estava grávida. Respondi, sem hesitar: “sim”. Eu nunca tinha pensado em não falar português com ele. Para mim, já era subentendido. Na época, eu nem pensava muito sobre o porquê de querer fazer isso. É a minha língua materna e ponto. Sem contar que eu sempre ouvi falar que crianças aprendem muito mais rápido e, além disso, sempre achei o máximo a ideia de um toquinho de gente falando duas línguas.

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Ana esperando o Oli em 2016

Durante a gravidez, conversando mais a respeito do assunto com a Pri, ela me mostrou alguns vídeos sobre bilinguismo e sobre língua de herança e a minha vontade de falar português dentro de casa só aumentou. E agora que meu pequeno está em nossas vidas, vejo como é realmente importante falar a língua materna com ele. Não se trata só de uma língua. É muito mais do que isso. É algo que brotou, nasceu e se desenvolveu dentro de você, durante sua vida toda. Vem desde aquela música que sua avó cantava quando você era pequeno até expressões que você nunca imaginou que fariam toda a diferença para você se expressar verdadeiramente e que, ao traduzir para outra língua, você percebe que não tem a mesma graça. Tem coisas que não tem tradução. E não importa se eu sei falar muito bem a língua do país que eu moro, no caso o alemão, a língua materna sempre vai ser aquela em que eu vou saber me expressar melhor.

Outro ponto que também não posso deixar de citar é com relação aos avós, família e amigos no Brasil. Quando a gente for de férias pra lá, acho super importante o Oliver saber falar a língua da mãe dele. Ele também vai acabar aproveitando muito mais se souber se comunicar no Brasil.

Às vezes, não é fácil falar português o tempo todo, quando você mora em outro país, mas me esforço ao máximo, sabendo que no futuro vai valer a pena. Quando estou em um grupo com mães alemãs, é difícil falar em português com o pequeno, pois tenho medo de me isolar. Mas quando é para chamar a atenção, aí não tem jeito: tem que ser na minha língua. Com ela sou mais enérgica e convincente. Para esse ponto preciso abrir parênteses. Discutindo com a Pri sobre isso, surgiu uma reflexão. Por que eu me sinto mais enérgica? Por que será que tem certas coisas que a gente só sente que consegue se expressar de verdade quando a gente fala a nossa língua? Por que???

Pensei muito a respeito para tentar explicar o que eu sinto. Quando eu cheguei na Alemanha, percebi que alguns reflexos eram só em português. Por exemplo: Ai que dor, nossa, Ai meu Deus, etc… Com o tempo, essa espontaneidade vem em alemão também. Agora não falo mais “ai” e sim “aua” (que é como eles dizem aqui). Isso me deixa meio indignada até hoje. Como assim a expressão da minha dor pode mudar de língua?

Mas voltando para o “não” que eu falo para o Oliver… por que ele tem que ser em português? Eu sei falar “não” em alemão e muito bem por sinal. Mas é o “não” que eu ouço lá atrás, desde sempre, e não o “nein” que eu escuto aqui só há 7 anos. A mesma coisa acontece quando eu vibro com algo do Oliver: “Isso, bebê!!! Muito bem!!!”. Essa positividade também só pode ser na minha língua. Também veio dos meus pais. E quando eu falo: “Ô meu amor, o que foi? Vem cá com a mamãe, vem”. É claro que sei falar em alemão essa frase. Mas a musicalidade da minha língua materna é mais carinhosa e eu sinto que esse carinho só posso expressar verdadeiramente através da minha língua.

E para vocês? Como é essa questão? Tem sentimentos que vocês só conseguem transmitir para os filhos na língua materna de vocês? Como é se expressar nas diferentes línguas? Compartilhem com a gente suas experiências!

Escrito por Ana

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